Olá...

Quanto tempo! Nem conto o tempo, nem desconto...
As teias de aranha que deixei teceram aqui lindos bordados.
O que tens feito, vc que não me lê?
Eu tenho bordado, me perdido e me achado em tecidos...
Rendi-me às rendas.
A poesia é o fio da meada...
P O E M I.
1...

 

Anunciação - (Alceu Valença)

 

Na bruma leve das paixões que vêm de dentro
Tu vens chegando pra brincar no meu quintal
No teu cavalo peito nu cabelo ao vento
E o sol quarando nossas roupas no varal
Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais
A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
E eu não duvido já escuto os teus sinais
Que tu virias numa manhã de domingo
Eu te anuncio nos sinos das catedrais

 

     - Tu vens...? Sim, eu vou. Tarde de Sábado. Uma longa espera, em nada vã...

2... Um dia mais do que ESPECIAL, independência que nada, Eu e Você!

 

Último Romance - (Los Hermanos)

 

Eu encontrei-a quando não quis
Mais procurar o meu amor
E o quanto levou foi pra eu merecer
Antes de um mês, eu já não sei
E até quem me vê, lendo jornal
Na fila do pão sabe que eu te encontrei

E ninguem dirá
Que é tarde demais
Que é tao diferente assim
O nosso amor
A gente é quem sabe pequena

Ah vai! me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém
A fim de te acompanhar
E se o caso for de ir a praia
Eu levo essa casa numa sacola

Eu encontrei-a e quis duvidar
Tanto clichê
Deve não ser
Voce me falou
Pra eu não me preocupar
Ter fé e ver coragem no amor

E só de te ver
Eu penso em trocar
A minha tv num jeito de te levar
A qualquer lugar
Que você queira
E ir onde o vento for
E pra nós dois
Sair de casa já é
Se aventurar

Ah vai! me diz o que é o sossego que eu te mostro alguém
Afim de te acompanhar
E se o tempo for te levar eu sigo essa hora
Pego carona
Pra te acompanhar...

 

     - Hoje, sempre e nos últimos 16 meses, te acompanhar e ser mais feliz assim, contigo.

Contagem Regressiva : 3...

 

Espere por mim, Morena - (Gonzaguinha)

 

Tire um sono na rede
Deixa a porta encostada
Que o vento da madrugada
Ja Me leva pra você
E antes de acontecer o sol
A barra vir quebrar
Eu Estarei nos teus braços para nunca mais voar

Espere por mim, morena
Espere que eu chego já
O amor por você morena
Faz a minha saudade me apressar

E nas noites de frio serei o teu cobertor
Quentarei o teu corpo
Com o meu calor
Ô Minha santa te juro
Juro Por Deus Nosso Senhor
Nunca mais minha morena
Vou fugir do seu amor

Espere por mim, morena
Espere que eu chego já
O amor por você morena
Faz a minha saudade me apressar

Tire um sono na rede
Deixa a porta encostada
Que o vento da madrugada
Ja Me leva pra você
E antes de acontecer
O Sol a barra vir quebrar
Eu Estarei nos teus braços para nunca mais voar

Espere por mim, morena
Espere que eu chego já
O amor por você morena
Faz a minha saudade me apressar...

 

     - Isso mesmo, 3,2,1 e já. Canções de nós dois...uma nova série, trilha sonora da nossa história. Espere por mim, Moreno. Eu chego já. 3...

25º - Um salto, um lapso.

 

     - Uma ausência dentro da outra. Desculpas. Cobrança dentro, cobrança fora. Terminam os dias. Veríssimo, como vc queria. "Amor", lembra vc em todos os sentidos. ;)

 

Amor - (Luís Fernando Veríssimo)

   "Ela: Você me ama mais do que tudo?
    Ele:
Amo.
    Ela:
Paixão, paixão?
    Ele:
Paixão, paixão mesmo.
    Ela:
Mais do que tudo no mundo todo?
    Ele:
No mundo todo e fora dele.
    Ela:
Não acredito.
    Ele:
Faz um teste.
    Ela:
Eu ou fios de ovos.
    Ele:
Você, fácil.
    Ela:
Daqueles com calda grossa, que a gente chupa o fio e a calda escorre pelo queixo.
    Ele:
Prefiro você.
    Ela:
Futebol.
    Ele:
Não tem comparação.
    Ela:
Você esta caminhando, vem uma bola quicando, a garotada grita "Devolve tio!" e você domina, faz dezessete embaixadas e chuta com perfeição.
    Ele:
Prefiro você.
    Ela:
Internacional e Milan em Tóquio pelo campeonato do mundo, passagem e entrada de graça.
    Ele:
Você vai junto?
    Ela:
Não.
    Ele:
Pela televisão se vê melhor.
    Ela:
Faz muito calor. Aí chove, aí abre o sol, aí vem uma brisa fresca com aquele cheiro de terra molhada, aí toca uma musica no rádio e é uma nova do Paulinho. É Sexta-feira e a televisão anunciou um Hitchcock sem dublagem para aquela noite... e o Itamar está dando certo.
    Ele:
Você.
    Ela: Voltar a infância só pra poder pisar na lama com o pé descalço e sentir a lama fazer squish entre os dedos.
    Ele:
Você, longe.
    Ela:
A Sharon Stone telefona e diz que é ela ou eu.
    Ele:
Que dúvida. Você.
    Ela:
Cheiro de livro novo. Solo de sax alto. Criança distraída. Canetinha japonesa. Bateria de escola de samba. Lençol recém-lavado. Hora no dentista cancelada. Filme com escadaria curva. Letra do Aldir Blanc. Pastel de rodoviária.
    Ele:
Você, você, você, você, você, você, você, você, você e você, respectivamente.
    Ela:
A Sharon Stone telefona novamente e diz que se você se livrar de mim ela já vem sem calcinha.
    Ele:
Desligo o telefone.
    Ela:
Fama e fortuna. A explicação do universo e do mercado de commodities, com exclusividade. A vida eterna e um cartão de credito que nunca expira.
    Ele:
Prefiro você.
    Ela:
Uma cerveja geladinha. A garrafa chega estalando. No copo, fica com um quarto de espuma firme. O resto é ela, só ela, dizendo "Vem".
    Ele:
Hummm...
    Ela:
Como, hummm? Ela ou eu?

    .... Silêncio de 5 segundos ...

    Ele: Qual é a marca?
   
Ela: Seu cretino!"

 FIM

     - Mas eu quero ver participação, viu! Tu pode mexer esses dedinhos e colocar alguma coisa aí embaixo. Escrita, pra quem entendeu outra coisa. Bjo!

21º Dia

 

     "Ali chegando, Conrado disse: 'Logo veremos quem foi que mentiu ontem à noite; se você, ou se eu.'

     Chichibio, percebendo que a ira de Conrado persistia, e que seria indispensável provr que era verdade a sua mentira, ficou sem saber o que fazer; por isto, cavalgou, atrás de Conrado, com o maior medo desse mundo; e não há dúvida que, se pudesse, teria fugido, de muito bom grado. Não podendo fugir, olhava ora para frente, ora para trás, ora para os lados; tudo o que ele via lhe parecia que fossem grous; e todos os grous se lhe afiguravam estar de pé, sobre duas pernas.

     Quando os dois chegaram bem perto do rio, Chichibio verificou, antes de mais nada, que, à margem, se encontravam uns doze daqueles pássaros, todos postos sobre uma perna só, que é como costumam ficar quando dormem. Sem perda de tempo, o cozinheiro mostrou aquilo a Conrado, dizendo: 'Meu senhor, bem pode o senhor verificar que, ontem à noite, eu lhe disse a verdade; os grous não tem mais do que uma coxa, e do que uma perna; examine, se quiser, aqueles que lá estão.

     Ao vê-los, Conrado exclamou: 'Espere um pouco, que eu lhe mostrarei que todos têm duas coxas e duas pernas!' Dizendo isto, Conrado aproximou-se mais das aves, gritando: 'Oh!Oh!' Em consequência deste grito, os grous desceram a outra perna; deram alguns passos; e começaram a fugir. Então, dirigindo-se a Chichibio, perguntou: 'Que é que lhe parece, glutão? Não se lhe afigura que aqueles grous têm duas coxas e duas pernas!'

     Chichibio, aterrorizado, sem saber onde ele mesmo fora buscar aquela resposta, respondeu: 'Senhor, lembre-se de que o senhor não gritou 'Oh!Oh!' ao grou ontem à noite. Não há dúvida que, se o senhor houvesse gritado por essa forma, o grou de ontem à noite também teria posto à mostra a outra coxa e a outra perna, como agora fazem estes.'

     Conrado gostou tanto desta resposta, que toda sua ira se converteu em alegriae riso; e disse: ' Chichibio, você tem razão. Era isso o que eu deveria ter feito.' Assim, pois, com a sua resposta, pronta e divertida, Chichibio dissipou a má sorte; e fez as pazes com seu amo."

FIM

     - Amor, tu tens razão. E razão tenho eu também. Concluimos nada e juntos esperamos sãos.

20º Dia

 

     "O cozinheiro, mentiroso, respondeu: 'Senhor, os grous não tem mais do que uma coxa, nem mais do que uma perna.' Conrado, então, um tanto perturbado, indagou: 'Como é isso, imbecil?Então eles não tem mais do que uma coxa e do que uma perna? Será que você pensa que eu nunca vi grou algum, afora este?' E Chichibio prosseguiu: 'Entretanto, meu senhor, é como lhe digo; e quando for de seu agrado, farei com que o senhor observe isso nos grous vivos.

     Conrado, com atenção para com os forasteiros que convidava, não quis encadear discussões; mas disse: 'Uma vez que você afirma que me fará observar o caso nos grous vivos, coisa que jamais vi, nem ouvi, que fosse possível, desejo vê-la amanhã cedo; e então me darei por satisfeito. Entretanto, juro-lhe, sobre o corpo de Cristo, que, se isso não acontecer, mandarei que o castiguem de tal forma, que você por muito tempo conservará na memória tamanho castigo; enquanto viver você recordará do meu nome.'

     Terminado o debate, pois por aquela noite, esperou-se pela manhã seguinte. Assim que o dia clareou, Conrado, cuja fúria o sono dormido não atenuara, saiu da cama; sentia-se ainda tomado pela ira contra o cozinheiro; ordenou que lhe fossem apresentados os cavalos; mandou que Chichibio montasse um rocinante; e com ele, rumou para um rio, em cuja margem  sempre se viam grous, ao amanhecer;"

     - Até amanhã...Amo-te.

19º Dia - Senta que lá vem história...

 

     - Amor, começamos hj um novo conto, curtinho, engraçadinho, da mesma fonte. É mesmo um livro muito bom. Saudades...Bjo-te.

 

Quarta Novela - Terceira Jornada (Decameron)

     "Conrado Gianfigliazzi sempre foi nobre cidadão de sua cidade; era, por índole, liberal e magnífico. Vivendo vida cavaleirosa, divertia-se continuamente com pássaros e cães; deixava de lado, ao presente, as maiores obras, reservando-as para o futuro.

     Certo dia, Conrado, por meio de um seu falcão, nas proximidades de Perétola, abateu um grou; achando a ave gorda e jovem, mandou-a a um seu cozinheiro, muito bom, que se chamava Chichibio, e que era veneziano; ao mesmo tempo, mandou dizer-lhe que preparasse o pássaro para o jantar, temperando-o bem.

     Chichibio, que era e parecia moço abobalhado, limpou o grou; pô-lo ao fogo; e com muito cuidado, começou a assá-lo. Estava o pássaro já quase pronto, exalando apetitosíssimo aroma, quando aconteceu de uma mulherzinha da região, que se chamava Brunetta, e por quem Chichibio se havia fortemente apaixonado, entrou na cozinha. Percebendo o aroma do grou assado, e vendo-o tão douradinho, suplicou, carinhosamente, a Chichibio, que lhe desse uma coxa do pássaro. Chichibio respondeu cantando; e disse: ' Você não a receberá de mim! Você não a receberá de mim!' Em consequência, Brunetta, bastante desconcertada, ameçou: ' Pela minha fé em Deus! Se você não me der uma coxinha, não terá nunca, de mim, coisa que lhe agrade.'

     Dentro de pouco tempo, as palavras trocadas foram muitas. Por fim, Chichibio, para não deixar que a mulher  por ele amada se zangasse de fato, retirou uma das coxas do passaró assado e deu-lha.

     O grou assado, sem a coxa, foi posto diante de Conrado, à mesa em torno da qual se encontravam também alguns forasteiros, seus convidados. Conrado ficou surpreso, em face daquela falta; mandou chamar à sua presença o cozinheiro Chichibio e perguntou-lhe o que havia acontecido com a outra coxa do pássaro..."

 

     - Espere por mim Moreno...espere que eu volto já. Até amanhã, gatinho.

16, 17 e 18º - Tudo junto... pelo menos alguma coisa...

 

     "...continuava dizendo: '-Pensas agora que as tuas carícias infinitas possam agradar-me e consolar-me, cão fastioso. Mas erras. Não me darei por consolada, enquanto eu não te vituperar em presença de quantos parentes e amigos e vizinhos tenhamos. Ora, não sou eu, perverso, tão bela quanto a mulher de Ricardo Minútolo? Não sou tão gentil dama como ela? Por que não me respondes, cão imundo? Que tem ela mais do que eu? Aparta-te, não me toques que já fizeste o suficiente por hoje. Sei bem que de agora em diante, já sabes quem sou, forcejarás por fazer até esse momento o que espontaneamente não fizeste. Mas se Deus me der a sua graça, eu te farei padecer de ciúme; não sei o que é que me prende que não mando chamar por Ricardo, que me amou mais do que a si mesmo e jamais pôde orgulhar-se de eu tê-lo olhado, uma vez que fosse, e não sei que mal teria havido se eu o tivesse feito. Acreditaste ter a mulher dele e é como se a tivesses possuído, pois não esteve em ti a culpa por não se tratar dela. portanto, se ele me possuísse, não terias por que me censurar'.

     As palavras foram bastantes e grande a amargura da mulher. Por fim, Ricardo, pensando que se saísse, deixando-a nessa crença, muitos males poderiam sobrevir, deliberou revelar-se, tirando-a do engano em que estava. E, segurando-a bem entre os braços, de modo que não pudesse escapar, disse: '-Doce amor meu, não vos pertubeis, aquilo que, simplesmente amando, não pude ter, o Amor, com enganos, ensinou-me a possuir. Eu sou o vosso Ricardo.'

     Catela subitamente quis atirar-se do leito, mas não pôde. Quis gritar mas Ricardo tapou-lhe a boca, dizendo: '- Senhora, é impossível que aquilo que aconteceu, deixe de ter acontecido, embora ficásseis a vida toda gritando. E se gritardes ou fizerdes que, de qualquer maneira, o que fizemos venha a ser do conhecimento de qualquer pessoa, duas coisas podem acontecer: Uma (que não vos deve importar pouco) é que a vossa honra e boa reputação serão destruídas, pois se disserdes que eu aqui vos trouxe por engano, terei que responder que não é verdade, antes que vos fiz vir por dinheiro e presentes prometidos e que, por não terem sido o que esperávas, vós vos pertubastes, passando a fazer tão grande alarido. E vós sabeis que o povo está mais inclinado a acreditar no mal do que no bem e por isso mesmo acreditará em mim, antes de acreditar em vós. Depois disso nascerá entre vosso marido e mim uma inimizade mortal e pode acontecer muito bem que um de nós acabe matando o outro, tal seja a marcha dos acontecimentos, coisa que de nenhum modo vos deve deixar contente. E, por isso, coração meu, não queirais a um tempo, desonrar-vos e pôr em pergio e luta vosso marido e a mim. Não sois a primeira nem sereis a última a ser enganada, nem vos enganei para tirar-vos a honra, mas por um imenso amor que vos dedico e dedicarei sempre. Dispondo-me a ser vosso humilíssimo servidor. E como há muito que eu e minhas coisas e tudo que eu possa e valha fiz vossos e pus a vosso serviço, acredito que de hoje em diante ainda mais o estarão. Ora, vós sois esclarecida em outras coisas e estou certo de que o sereis também nessa.'

     Catela chorava profusamente. E muito perturbada e amarga, deu razão às palavras de Ricardo. É que ela acreditava ser possível de acontecer o que Ricardo prognosticava. E disse: '-Ricardo, não sei como Deus pode conceder-me que eu tolere a ínjúria e o engano que me fizestes.Não quero gritar aqui aonde fui conduzida pela minha ingenuidade e ciúme, mas vivei seguro de uma coisa, que eu não ficarei contente, enquanto não me vingar do que me fizeste. Já é tempo de me deixardes. Deixai-me, imploro. Já possuistes o que desejastes e já muito me maltratastes'.

     Ricardo dispunha-se todavia a não deixar, a não ser depois de reaver a sua paz. Por isso começou com dulcíssimas palavras a apaziguá-la, tanto disse, rogou e conjurou que ela, vencida, fez as pazes com ele e, postos enfim de acordo, permaneceram por muito tempo em amistosa companhia. E a mulher, conhecendo então que os beijos do amante são mais saborosos do que os do marido transformou em doce amor a sua dureza e, daquele dia em diante, ternissimamente o amou e, agindo cautelosamente, muitas vezes gozaram do seu amor. E que Deus nos faça gozar do nosso."

Fim

     - E que Deus nos faça gozar do nosso. Muito em breve. Amo-te.

15º Dia

 

     "Ricardo, à sua chegada, levantou-se feliz e acolhendo-a nos braços, disse calmamente: '-Vem, alma minha.'. Catela, querendo mostrar ser outra que não ela mesma, abraçou-o e beijou-o, acariciando - e sem dizer palavra, temendo, se falasse, ser por ele reconhecida. O quarto era escuríssimo, o que foi do agrado de ambos. Nem mesmo a grande permanência ali dentro deu aos seus olhos o poder de verem claro.

     Ricardo conduziu-a para o leito e aí, sem falar, de modo que a voz não o pudesse trair, por grandíssimo espaço de tempo ficaram, e com grande alegria de ambos. Mas quando a Catela pareceu que era chagada a ocasião de desabafar, acesa de fervente ira, disse: '-Ah, quanto é mísera a sorte das mulheres e como é mal empregado o amor de muitas para com os maridos! Desgraçada de mim, há oito anos que eu te amo mais do que a minha vida e tu ardes e te consomes no amor de mulher estranha. Criminoso e perverso, com quem acreditas que estejas? Estás com aquela que, com falsas lisonjas, enganaste e por muitas vezes, fingindo-lhe amor quando estavas enamorado de outra. Eu sou Catela, não sou a mulher de Ricardo, traidor desleal. Escuta, para ver se reconheces minha voz. Parece que mil anos que vivêssemos eu não te envergonharia como mereces, cachorro sujo e vituperável. Desgraçada de mim! A quem eu, por tantos anos, dediquei tanto amor? A este cão desleal, que acreditando ter nos braços mulher estranha, me fez mais carícias nas poucas horas que aqui me teve do que em todas as outras em que me possuiu. Estivesses hoje, cão renegado, bastante animoso enquanto em casa mostras-te débil, rendido e impotente. Mas Deus louvado, lavraste o teu campo e não campo alheio como acreditavas. Não é de estranhar que esta noite passada não me houvesses procurado. Esperavas em outro lugar aliviar a tua carga e querias chegar, cavalheiro fresco à batalha. Mas louvado seja Deus assim como a minha precaução seja louvada, a água desceu para o mar como devia. E não me respondes, criminoso? Nada me dizes? Emudeceste só de ouvir-me? Palavra que não sei o que me impede de meter as mãos nos teus olhos, arrancando-os! Acreditaste fazer ocultamente esta traição? Por Deus, vês bem que tanto sabe um como o outro. Não conseguiste. Saí-me melhor do que supunhas.

     Ricardo gozava consigo mesmo aquelas palavras e sem responder nada, abraçava-a e beijava-a, e mais do que nunca fazia-lhe grandes carícias. E ela..."

 

     - Falta das tuas carícias...aqui, em mim. Amo-te.

14º Dia

 

     Na manhã seguinte, Ricardo foi ao encontro da boa mulher que era a dona da casa de banhos, disse-lhe o que pretendia fazer e pediu-lhe que o favorecesse. A boa criatura, que o apreciava muito, disse-lhe que o faria de bom grado, combinando com ele o que teria de fazer ou dizer.

     Na casa de banhos havia um quarto muito escuro, dada a falta de qualquer janela. A conselho de Ricardo, a mulher, pôs ali uma cama em que ele se meteu à espera de Catela.

     Dando às palavras de Ricardo mais fé do que mereciam, à tarde, Catela voltou aborrecida para casa, para onde Felipe também voltava cheio de outros pensamentos, tendo tratado a esposa com menos familiaridade do que de costume, o que contribuiu para aumentar a sua desconfiança. Dizia consigo mesma: 'Na verdade ele está pensando na mulher com quem pretende encontrar-se amanhã, o que com toda certeza não irá acontecer'. E passou a noite dominda por este pensamento e imaginando o que lhe deveria dizer na hora azada.

     Chegada a hora, Catela, acompanhada de uma criada, dirigiu-se para casa de banhos. E ali encontrando a boa mulher, perguntou-lhe se Felipe havia aparecido, ao que a proprietária, instruída por Ricardo, respondeu: 'Sois a mulher que deverá encontrar-se com ele?'. Sim, respondeu catela. 'Podeis entrar, pois, ele está lá dentro.' disse-lhe, em seguida, a senhora.

     Catela que andava procurando o que não queria encontrar, dirigiu-se ao quarto. Entrou com a cabeça coberta, e fechou a porta."

 

     - " Há tempos tento encontrar um bom momento, alguma ocasião propícia, para pegar sua mão, olhar nos olhos teus; Seria bom quatro paredes, eu, você e Deus..." - 14 dias...

13º Dia - Catela, no banho...vc, em casa, pintando as paredes...

 

     "Não presumo agora que acrediteis que eu a enviasse. Mas se eu estivesse em vosso lugar, faria com que ele se encontrasse comigo em lugar de encontrar-se com quem ele quer e, depois de curta permanência com ele, eu lhe faria ver com quem havia estado, tratando-o então como merece. E assim agindo, de tal sorte ele se envergonharia que ficará a um tempo vingada a ofensa que quis inflingir a mim e a vós.

     Catela, sem atender a quem lhe falava nem aos seus enganos, como são de fazer os ciumentos, subitamente deu fé às palavras e passou a ligar com este fato agumas coisas que haviam acontecido antes. E de súbita ira acesa, responde que ela assim certamente agiria e que, se ele aparecesse, ela o envergonharia de tal forma que sempre que ele visse alguma mulher, o episódio lhe voltaria à imaginação.

     Ricardo, contente com o que via e parecendo-lhe que a idéia havia sido boa e procedente, confirmou a sua perfídia com muitas outras palavras, fazendo-a acreditar mais, rogando-lhe todavia, que não dissesse a ninguém o que ele lhe havia falado, o que ela prometeu sob palavra."

 

     - Faça um bom serviço...;) Até amanhã Gatinho.

12º Dia - Catela no Banho, nós dois, aqui.

 

     "Ora, aconteceu que, sendo dia de muito calor, muitas comitivas de homens e mulheres, de acordo com os custumes napolitanos, se dirigiram para as praias e Ricardo, sabendo que Catela também havia ido com os seus, tomou parte em uma comitiva, tendo sido recebido no grupo de Catela não sem antes muito fazer-se de rogado. Então Catela e as mulheres puseram-se a motejar de seu novo amor, do qual ele, mostrando-se muito aceso, dava ainda mais motivos para comentários.

     Enquanto isso, umas iam para uma direção, outras para outra, como acontece por aquelas paragens, restando Catela com poucas outras onde estava Ricardo; Este fez logo alusão a certo amor de Felipe, seu marido, o que a fez acender-se de súbito ciúme e começou a arder, toda desejo de saber o que Ricardo queria dizer. Depois de se ter dominado por algum tempo, e não podendo mais fazê-lo, pediu a Ricardo que, pelo amor da mulher que mais amava, a esclarecesse sobre o que dissera de Felipe. E Ricardo falou: "- Vós me conjurastes por pessoa tal que eu não poderia atrever-me a negar o que pedis, e por isso estou pronto a dizer-vos, desde que me prometais que não direis palavra do que eu disser depois de verificardes a verdade do que afirmo. E quando quiserdes, eu vos ensinarei como podereis verificá-la."

     A mulher ficou satisfeita com o que ele pedia e acreditou ainda mais que ele dizia a verdade, jurando-lhe que a ninguém o revelaria. Retirados para um lado em que ninguém os ouviria, Ricardo disse: "- Senhora, se eu vos amasse como já vos amei, não me atreveria a dizer coisa que acreditasse poder aborrecer-vos. Mas como aquele amor é passado, preocupa-me menos o descobrir-vos toda verdade. Não sei se Felipe alguma vez se ultrajou com o amor que eu vos dediquei ou se abrigou a crença de que eu fosse por vós amado. Mas seja lá como for, nem uma coisa nem outra ele jamais deixou transparecer. Agora, esperando talvez uma ocasião, pois acredita que eu esteja menos desconfiado, dá mostras de querer fazer a mim o que eu duvido que ele não tema que eu lhe faça: ele quer, em suma, conquistar a minha mulher. E pelo que eu tenho entendido, ele de pouco tempo para cá, secretíssimamente a tem solicitado, em repetidas embaixadas, de todas as quais por ela mesma fui inteirado, e quem ela deu a resposta que eu impus. Esta manhã, porém, antes de eu vir aqui, encontrei em minha casa uma mulher desassissada que vi logo muito bem quem era. Chamei a minha esposa e perguntei-lhe o que pedia aquela mulher, ao que ela respondeu: "- É a instigação de Felipe que a faz vir aqui em busca de respostas e esperanças e diz que a todo custo quer saber o que eu pretendo fazer e que ela, quando eu quiser, fará com que eu vá secretamente a um banho com ele e para que eu consinta, me pede e importuna. E se não fosses tu que me meteste nesses enredos, não sei por que, eu me teria livrado dele de tal maneira que nunca mais se atreveria a pôr os olhos onde eu estivesse.

     E Ricardo continuou: "- Então pareceu-me que Felipe avançava muito e que não era possível tolerar mais e resolvi dizer-vos, para que reconheçais a recompensa que a vossa completa fidelidade recebe, e pela qual eu já estive a eminência de ser levado ao sepulcro. E para que não penseis que o que digo são apenas palavras e fábulas, se não verdades de que, quando quiserdes, poderei certificar-vos, disse a minha esposa, para dizer à mulher que a esperava, que estava disposta a aparecer amanhã às três da tarde, no banho. Com isso a criatura partiu contentíssima..."

     - Ora meu querido, assim encerro o trechinho de hoje. Se tiver paciência e continuar a me ler, conto mais amanhã! Bjo-te.

11º Dia - Uma nova novela

 

     - Oi meu amor! Iniciaremos hj um novo capítulo, um conto inédito na nossa história. Gostaria de tê-lo aqui todos os dias, participando e brincando comigo, é um encontro. Trato feito?

 

Catela no Banho -  (Giovanni Bocaccio - Decameron)

     "Em Nápoles, cidade antiquíssima e aprazível, como outra não há na Itália, existiu um jovem, claro por sua nobreza de sangue e esplêndido por suas riquezas, chamado Ricardo Minútolo, o qual , embora fosse casado com uma jovem belíssima, enamorou-se de outra que, de acordo com a opinião de todos, ultrapassava de muito em beleza, a todas as mulheres napolitanas. Chamava-se Catela e era mulher de um jovem igualmente nobre, Felipe Sighinolfo, e que ela, por ser honestíssima, amava sobre todas as coisas.

     Ricardo Minútolo, amando-a e fazendo todas as coisas com que se podem obter as graças e o amor de uma mulher, e não chegando em nada a realizar os seus desejos, quase se desperava. Não podendo ou não sabendo libertar-se do amor, tampouco morria, nem lhe aprazia o viver. E em tal estado aconteceu que, aconselhado por alguns parentes seus, quis desistir de tal amor, posto que em vão se fadigava, já que Catela encontrava sua felicidade apenas em Felipe de quem com tal ciúme vivia, que temia que até as aves que passavam pelo ar, quisessem tomá-lo. Sabedor dos ciúmes de Catela, Ricardo, subitamente, tomou uma resolução, começando a aparentar que do amor de Catela desesperava e por isso colocava a sua ambição em outra mulher nobre e por amor desta fazia em justas e torneios todas aquelas façanhas que só por Catela faria.

     Não passou muito tempo até que todos os napolitanos, Catela inclusive, se convenceram de que ele amava grandemente essa segunda dama, e tanto nisso perseverou que todos se convenceram de a verdade era essa, e a própria Catela renunciou à esquivança com que o tratava, quando o sabia enamorado, passando a usar da intimidade que como vizinho lhe devia, saudando-o, como fazia com os outros..."

     - See ya! Amo muito...

9 + 1 º Dia

 

    "As mulheres perguntaram: "Como se põe o diabo no inferno?" A jovem, empregando um misto de palavras e gestos, mostrou como era; ao ver a explicação, as mulheres riram tanto que ainda não devem ter parado e disseram: "Não precisa se preocupar, filhinha, pois essas coisas são muito bem feitas por aqui também. Neerbal será um bom Deus exótico."
    E de tanto espalharem a história pela cidade, reduziram-na a um provérbio popular, o qual reza que o serviço mais agradável que se pode prestar a Deus é o pôr o diabo no inferno. Esse ditado transcendeu os mares e ainda hoje sobrevive. E por isso vós, jovens mulheres, carecentes da graça divina, aprendei a pôr o diabo no inferno, pois ele é abençoado por Deus e apraz a todas as partes envolvidas, pois dele pode-se gerar e perseverar muita felicidade."

     - Amor sem limites. Felicidade.

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